Eram quatro da matina. Cinco pessoas se meteram dentro de um táxi, completamente bêbadas. Eu me estirava sobre todos no banco traseiro, sentindo a mão dele sobre a minha, me segurando contra as freiadas bruscas do imbecil que tava dirigindo. O show era o assunto, entre risos e meia palavras eu conseguia formular algumas frases.
O ar era fresco, a varanda fria e o vinho agradável. Já estavamos todos jogados no chão da sala, entre cobertores, abraços e cigarro. No som algo leve, um solo perfeito para o momento, os músicos discutiam algo sobre Hendrix, enquanto os dedos aceleravam dentro de mim, e os lábios silenciavam meus gemidos e sussuros. Ele sabia o que estava fazendo, arriscando minha reputação de boa moça, de novatana na cidade, de inocente, mesmo sendo uma puta mentira. Explodi em silêncio, voltando a buscar sua boca. Nós poderíamos trepar aqui na frente que ninguém iria reparar, estão todos tão chapados e concentrado nessa merda de conversa que nem perceberam que o sol já está nascendo. Me enrolo na coberta e o arrasto para o frio cortante lá de fora, acendendo um cigarro.
- Apaga essa merda – ele tenta roubá-lo, me fazendo esquivar
- Não. Você gosta de fazer sexo, não é?
- Claro.
- Já imaginou você nunca mais poder fazer? Então…
- Você é louca.
Um diálogo imbecil é iniciado, mas meu estado alcólico não permite que eu o derrube com palavras. Jogo a bituca lá embaixo e pego uma cerveja, fugindo de seus braços para o banheiro. São oito horas da manhã, eles continuam ligados, pó, maconha, haxixe. Eu tenho nojo desses ratos, precisam dessa merda toda pra conseguir fazer alguma coisa.
São oito homens, eu e mais uma mulher. Tem outro cara me olhando, enquanto o babe aqui do lado beija meu pescoço. Ele desliza a lingua delicadamente até minha boca e a morde, me puxando para a continuação. O outro só olha, todo tarado, com cara de cachorrinho sem dono…se esse aqui me largar, sozinha eu não fico.
O povo capotou na sala, eu me jogo no colchão com ele e fecho a porta do quarto. Ele me puxa, e joga o edredon sobre a gente, me prensando por baixo, deslizando a mão por baixo da minha blusa. Eu o empurro com força. Nada de sexo pra você, não aqui e não agora. Não sem camisinha. Sinto muito. A gente se diverte limitadamente por ali, e depois de algum tempo eu volto a escutar a guitarra e as pessoas cantando. Ele busca mais cerveja enquanto eu acendo o último cigarro. Bebemos, dormimos ali, juntos. É estranho se enrolar nos braços de alguém que eu nunca mais vou ver.
São onze da manhã, o outro casal quer usar o quarto. Eu preciso ir embora.
- Eu posso te chamar de Clark Kent…
Ele ri e me puxa, perguntando onde eu moro.
- Aqui perto.
- Eu te levo.
A noite termina aqui. Eu dou um beijo de despedida e chamo o elevador, frustada por não ter trocado telefone. Com raiva de meus pais estarem em casa, a gente podia ter terminado o serviço. Mas não, a vida é toda controversa, cheia de babaquices do tipo.
Minha cabeça dói. Tomo dois goles de água e me jogo na cama, tentando lembrar de alguma coisa, algo que acabou de acontecer.
Mas a única coisa que me resta é o sorriso.