Era tudo novo ali. No puro prazer na inocência, ele repousava a cabeça sobre o meu colo, segurando minha mão firmemente. Ao longe, o sol ia se despedindo, deixando uma leve e única brisa no fim de tarde abafado. Nós trocávamos algumas palavras bobas, meu coração disparava quando via aquele sorriso sincero. Era tudo parte de um começo de vida, uma iniciação no mundinho chato e triste que é o amor. Tão perfeito, calmo, irreal, verdadeiro e tímido. A rua estava vazia, eu permanecia em silêncio, enquanto ele brincava com meus dedos em suas mãos magrelas e brancas.
- E quando tudo isso acabar?
- Como assim? – suspirei, afagando seu cabelo bagunçado.
- A gente vai crescer…Mudar. Talvez um dia nossos rostos se apaguem.
- Eu não sei…Talvez um dia nós vamos estar adultos, andando em alguma cidade no meio do caos e nos reconhecemos por um sorriso. Eu largaria meu namorado, você sua vida boêmia e nós podemos fugir pra França.
- Você é tão boba.
- E você é tão…
Seus lábios tocaram os meus, delicadamente, nada invasivo. Eram macios, tinham sabor de chocolate branco. O que aconteceu internamente não há como descrever, nada comparada a felicidade instantânea de uma roupa nova. Não, era algo bem melhor que isso. Era tudo tão mágico e delicioso, nada de preocupações. Éramos dois na calçada, os pés no chão quente, as mãos entrelaçadas, os sorrisos carregados de felicidade.
Hoje eu ainda olho para aquela foto estranha no fundo da caixa. Ele está longe, provavelmente apagou meu rosto. Eu não consigo sentir, nada comparado aquilo, nada que faça meu coração disparar como aquele dia. Eu só amei uma vez, eu tinha onze anos, um metro e sessenta e cinco e era boba.

