Posts de Junho, 2008

h1

eu que não amo você.

Junho 13, 2008

Era tudo novo ali. No puro prazer na inocência, ele repousava a cabeça sobre o meu colo, segurando minha mão firmemente. Ao longe, o sol ia se despedindo, deixando uma leve e única brisa no fim de tarde abafado. Nós trocávamos algumas palavras bobas, meu coração disparava quando via aquele sorriso sincero. Era tudo parte de um começo de vida, uma iniciação no mundinho chato e triste que é o amor. Tão perfeito, calmo, irreal, verdadeiro e tímido. A rua estava vazia, eu permanecia em silêncio, enquanto ele brincava com meus dedos em suas mãos magrelas e brancas.

- E quando tudo isso acabar?

- Como assim? – suspirei, afagando seu cabelo bagunçado.

- A gente vai crescer…Mudar. Talvez um dia nossos rostos se apaguem.

- Eu não sei…Talvez um dia nós vamos estar adultos, andando em alguma cidade no meio do caos e nos reconhecemos por um sorriso. Eu largaria meu namorado, você sua vida boêmia e nós podemos fugir pra França.

- Você é tão boba.

- E você é tão…

Seus lábios tocaram os meus, delicadamente, nada invasivo. Eram macios, tinham sabor de chocolate branco. O que aconteceu internamente não há como descrever, nada comparada a felicidade instantânea de uma roupa nova. Não, era algo bem melhor que isso. Era tudo tão mágico e delicioso, nada de preocupações. Éramos dois na calçada, os pés no chão quente, as mãos entrelaçadas, os sorrisos carregados de felicidade.

Hoje eu ainda olho para aquela foto estranha no fundo da caixa. Ele está longe, provavelmente apagou meu rosto. Eu não consigo sentir, nada comparado aquilo, nada que faça meu coração disparar como aquele dia. Eu só amei uma vez, eu tinha onze anos, um metro e sessenta e cinco e era boba.

h1

Clark Kent

Junho 1, 2008

Eram quatro da matina. Cinco pessoas se meteram dentro de um táxi, completamente bêbadas. Eu me estirava sobre todos no banco traseiro, sentindo a mão dele sobre a minha, me segurando contra as freiadas bruscas do imbecil que tava dirigindo. O show era o assunto, entre risos e meia palavras eu conseguia formular algumas frases.

O ar era fresco, a varanda fria e o vinho agradável. Já estavamos todos jogados no chão da sala, entre cobertores, abraços e cigarro. No som algo leve, um solo perfeito para o momento, os músicos discutiam algo sobre Hendrix, enquanto os dedos aceleravam dentro de mim, e os lábios silenciavam meus gemidos e sussuros. Ele sabia o que estava fazendo, arriscando minha reputação de boa moça, de novatana na cidade, de inocente, mesmo sendo uma puta mentira. Explodi em silêncio, voltando a buscar sua boca. Nós poderíamos trepar aqui na frente que ninguém iria reparar, estão todos tão chapados e concentrado nessa merda de conversa que nem perceberam que o sol já está nascendo. Me enrolo na coberta e o arrasto para o frio cortante lá de fora, acendendo um cigarro.

- Apaga essa merda – ele tenta roubá-lo, me fazendo esquivar

- Não. Você gosta de fazer sexo, não é?

- Claro.

- Já imaginou você nunca mais poder fazer? Então…

- Você é louca.

Um diálogo imbecil é iniciado, mas meu estado alcólico não permite que eu o derrube com palavras. Jogo a bituca lá embaixo e pego uma cerveja, fugindo de seus braços para o banheiro. São oito horas da manhã, eles continuam ligados, pó, maconha, haxixe. Eu tenho nojo desses ratos, precisam dessa merda toda pra conseguir fazer alguma coisa.

São oito homens, eu e mais uma mulher. Tem outro cara me olhando, enquanto o babe aqui do lado beija meu pescoço. Ele desliza a lingua delicadamente até minha boca e a morde, me puxando para a continuação. O outro só olha, todo tarado, com cara de cachorrinho sem dono…se esse aqui me largar, sozinha eu não fico.

O povo capotou na sala, eu me jogo no colchão com ele e fecho a porta do quarto. Ele me puxa, e joga o edredon sobre a gente, me prensando por baixo, deslizando a mão por baixo da minha blusa. Eu o empurro com força. Nada de sexo pra você, não aqui e não agora. Não sem camisinha. Sinto muito.  A gente se diverte limitadamente por ali, e depois de algum tempo eu volto a escutar a guitarra e as pessoas cantando. Ele busca mais cerveja enquanto eu acendo o último cigarro. Bebemos, dormimos ali, juntos. É estranho se enrolar nos braços de alguém que eu nunca mais vou ver.

São onze da manhã, o outro casal quer usar o quarto. Eu preciso ir embora.

- Eu posso te chamar de Clark Kent…

Ele ri e me puxa, perguntando onde eu moro.

- Aqui perto.

- Eu te levo.

A noite termina aqui. Eu dou um beijo de despedida e chamo o elevador, frustada por não ter trocado telefone. Com raiva de meus pais estarem em casa, a gente podia ter terminado o serviço. Mas não, a vida é toda controversa, cheia de babaquices do tipo.

Minha cabeça dói. Tomo dois goles de água e me jogo na cama, tentando lembrar de alguma coisa, algo que acabou de acontecer.

Mas a única coisa que me resta é o sorriso.